Quem somos / Nossa história
“um dia haverá meninas e mulheres cujos nomes
significarão mais do que o oposto do que é masculino;
significarão algo em si, que nos faça pensar não em
alguma forma de complemento ou limite, mas, sim, apenas
em vida e existência: o ser humano feminino”
Rainer Maria Rilke















































As Tendas e Clãs do Sul ® são, acima de tudo, uma comunidade de mulheres diversas, que escolhem caminhar juntas tecendo sonhos e nutrindo afetos. É uma rede que cresce a cada ano, se entrelaçando entre territórios rurais e urbanos, entre mares e montanhas, tendo a irmandade como estrela guia. É um espaço em que aprendemos a amar e ser amadas, por todas nossas relações, com entrega e confiança.
Em um mundo tão efêmero, onde somos arrebatadas por demandas e rotinas, as Tendas e Clãs do Sul ® surgem a partir de um profundo desejo de se descobrir: o que significa ser mulher? Em nossos tempos modernos, muitas práticas ancestrais que auxiliavam no fortalecimento dos tecidos sociais se perderam, deixando muitas de nós desamparadas e sem referências de como florescer como mulheres. Outras receberam referências pouco salutares, que, ao invés de encorajar a expressão livre e íntegra de seu ser, criaram prisões que reforçam padrões obsoletos e limitados.
Inicio da década de ’90. O momento era de grande tensão e de crise social. Com o declínio das didaturas militares na América Latina, começou-se a se falar abertamente no “estupro como arma de guerra” e nas diferentes e recorrentes maneiras de se perpetrar a violência contra as mulheres. Dentro e fora de casa. Em 1994, um evento internacional sobre este tema ocorre no Brasil e ficou conhecido pelo nome “Conferência do Pará”. Em novembro deste mesmo ano, um pequeno grupo de mulheres reuniu-se em uma noite de eclipse solar. Mal sabíamos que, o que de verdade nos movia, era a necessidade visceral de estar em roda com outras mulheres. Naquele momento, não tínhamos consciência disso. Estávamos apenas sensíveis ao espírito da época. Questionávamos papeis ao mesmo tempo em que seguíamos nossos caminhos espirituais próprios. Em uma sociedade materialista e superficial, orientada por um viés de desigualdade e um paradigma de dominação, onde somos soterradas por cobranças, demandas, propagandas e rotinas, as Tendas e Clãs do Sul ® surgem a partir de um profundo desejo de resgate e de autodescoberta, de conexão e de comunidade: o que significa ser mulher? Em tempos modernos, muitas práticas ancestrais que auxiliavam no fortalecimento dos tecidos sociais se perderam, deixando muitas de nós desamparadas e sem referências de como florescer enquanto indivíduos. Outras estão sendo moldadas por uma visão totalmente desconexa e fragamentada, onde se afastam dos instintos, do corpo e das emoções, não sabendo como lidar com seus sentimentos. Estão aprisionadas em padrões limitantes e preconceituosos.
Nossa intenção era criar um espaço seguro para a autodescoberta individual e coletiva. Começamos a nos encontrar de forma sistemática: estudávamos, dançamos e cantavamos, partilhavamos. Foi um movimento fluido e altamente experimental, onde fomos tecendo essa trajetória de autocuidado e fortalecimento mútuo: uma rede de apoio. Assim, foi-se consolidando uma egrégora de conexão intima e sagrada entre filhas, irmãs, mães, avós e amigas. Esses sentimentos de partilha, irmandade, ousadia e pertencimento seguem guiando essa jornada que completa mais de 30 anos. A cada ano, novas mulheres chegam; nossos laços se fortalecem e renovam nessa jornada. Aquelas que vieram antes acolhem e guiam as novas gerações; estas, por sua vez, revigoram a certeza de, juntas, vamos mais longe, constuindo um mundo onde todos ganham: mais amoroso, cooperativo e includente.
Origens
De forma mais pontual, nossa história começa em 1993 com a Lúcia D. Torres, uma jovem mãe, astróloga e instrutora de yoga, sedenta por conexões mais profundas. Após participar de um workshop chamado “Em busca do resgate da identidade feminina”, Lúcia se sentiu extremamente provocada pelo que vivenciou. A atividade facilitada por May East, era baseada em um mapa transcultural de arquétipos humanos relacionados aos elementos da natureza, desenvolvido pela antropóloga norte-americana Angeles Arrien. Esse mapa transcultural é apresentado no livro “O caminho quádruplo” onde Arrien faz uma síntese de suas pesquisas com tradições xamânicas e comunidades indígenas.
Inspirada por estes conhecimentos, Lúcia contagiou com o seu entusiasmo amigas e alunas que faziam parte dos seus círculos. Assim, ao longo de 1994, foi sonhado cada ponto do trabalho que ela nomeou na época de “Círculo Feminino Tenda da Lua ®”. A partir daí, iniciaram os encontros mensais na Lua Nova, reunindo mulheres interessadas em vivenciar diferentes papéis e facetas do feminino a partir de correlações com a mitologia greco-romana e os arquétipos astrológicos. Quando foi lançado, este trabalho era totalmente original, criando uma metodologia vivencial e arquetípica, complementada por canções transculturais e práticas ritualísticas de conexão com os quatro portais.
Em março de 1995, foi feito o primeiro encontro aberto, onde algumas mulheres levaram suas filhas e amigas para conhecer a proposta de trabalho. Deste encontro, surgiu o embrião do “Tenda da Terra ®”. Os encontros abertos continuaram a ser mantidos, mas, cada vez mais, surgiam pedidos de se viabilizar a entrada de mais pessoas no círculo, o que era difícil, pois ele já tinha um ritmo e uma trajetória… Buscando dar conta desses pedidos, em 30 de junho de 1995, Lúcia cria o “Círculo Feminino Tenda da Terra ®”, um grupo de iniciação aos trabalhos do Tenda da Lua. Assim, completou-se o ciclo inicial: as mulheres que cumpriam sua jornada na Tenda da Terra ® e vivenciavam o ritual de passagem final, poderiam, se quisessem, continuar sua jornada no Tenda da Lua ®, que exigia mais comprometimento e afinidade com uma proposta espiritual e de serviço planetário. As mulheres do Tenda da Lua ®, por sua vez, criaram um ritual de passagem e de acolhimento às novas integrantes egressas do Tenda da Terra ® e se estabeleceu uma linhagem de madrinhas e afilhadas ao longo de quatro anos. Foi redigida uma carta de princípios alinhadores dos propósitos do grupo que sempre é lida em dois momentos: na comemoração do nosso aniversário quando confirmamos nossa presença por mais um ciclo (ou nos despedimos do grupo), e no encontro de recepção das novas integrantes.
Com o crescimento dos círculos e a necessidade de redimensionar sua estrutura, em 1999, optamos por não ter mais o vínculo “madrinha-afilhada”, mas as mulheres mais velhas continuaram recebendo as mais novas com o mesmo ritual que foi criado pela primeira vez (ritual de acolhida). E, durante o ano, promovemos algumas atividades que permitem que todas as mulheres, das várias gerações, possam se encontrar novamente. Devido à demanda cada vez mais intensa de mulheres interessadas em participar dos círculos, criou-se um curso de formação de facilitadoras que credencia aquelas que sentem afinidade com o oitavo propósito que norteia a nossa ética grupal: “Honrar o serviço planetário de se tornar agente multiplicador; liderando grupos femininos onde os propósitos sejam semelhantes a estes ou trabalhando pela multiplicação de consciências”.
Em fevereiro deste ano, fomos tema de pesquisa da psicológa Luciene Geiger que defendeu a dissertação de mestrado “Aprendendo a ser mulher: contribuições de uma educação holística por meio dos Círculos femininos Tenda da Terra e Tenda da Lua” na PUC/RS.
Durante todos estes anos, vivemos muitos momentos importantes de descobertas, de alegrias, de sucessos, de conquistas, de partilha, de comunhão – celebramos aniversários, formaturas, exposições de artes, bebês nascendo, casamentos, reconciliações com namorados, com filhos, filhas menstruando, mulheres voltando a menstruar. Tecemos rituais, xales, sonhos, sacolas de talismãs e rodas de cura. E como a Vida pulsa completa e intensamente em nossas veias, corações e úteros, ao lado das bênçãos tivemos as dores e seus ensinamentos, presentes em todos os momentos difíceis que andam junto a elas: irmãs que foram morar em outros estados, irmãs que desistiram da jornada e, pelos mais diversos motivos, se desligaram do grupo, irmãs que sofreram perdas e rompimentos (de companheiros e de casamentos, de bebês que estavam sendo gestados, de seus sonhos mais íntimos) , que lidaram com longos períodos de doenças e cirurgias (pessoais e familiares), que se surpreenderam, sofreram e se preocuparam muito com as escolhas que fizeram e fazem.
Ao longo deste tempo, teceu-se verdadeiramente um espírito de clã inspirado pelo sagrado que reverenciamos dentro e fora de nós e, mais do que um simples grupo, hoje somos uma irmandade, um círculo, pois são nítidos os laços de amor, amizade e respeito que nos unem e nos protegem. Temos a certeza de que tudo aconteceu como aconteceu (e vem acontecendo ainda) porque estamos respondendo a um imperativo cósmico de mudança individual, social e planetária. Porque ressoa no nosso coração este apelo que vem tanto da Terra como do Céu e porque tivemos a coragem de “nos tornarmos as nossas visões”. Materializamos os nossos sonhos de cura por acreditarmos, primeiro e, acima de qualquer coisa, no Amor como a expressão original e última da razão de tudo e de todos existirmos nestes espaços-tempos que nos couberam enquanto humanidade.
